domingo, 22 de novembro de 2009

De um estado mental para outro


Estamos sempre tentando levar nossa vida da infelicidade para a felicidade. Ou, poderíamos dizer, desejamos nos mudar de uma vida de lutas para uma vida de alegria. Mas essas coisas não são as mesmas: sair da infelicidade para a felicidade não é o mesmo que sair da luta para a alegria. Algumas terapias buscam levar-nos de um eu infeliz para um eu feliz. A prática zen, porém, (e, talvez, algumas outras disciplinas e terapias) podem ajudar-nos a sair do eu infeliz para o 'não-eu', que é a alegria.

Charlotte Joko Beck
Sempre Zen.

Running Away



Matisyahu é um artista/Reggae judeu azídico de hip-hop. Não sou um grande fã de reggae, mas confesso que o ritmo me parece reconfortante e inspirador. As letras de reggae são frequentemente sobre justiça social, paz, amor, espiritualidade e harmonia. E algumas trazem uma espécie de ‘satori musical’. A música tem uma força poderosa em minha vida e que muitas vezes age como um guia ao longo do caminho do meio entre "alguma coisa e nada”. Esta versão de um clássico de Bob, é entoada aqui com certo ‘lirismo’, como se fosse uma espécie de koan:

"Todo homem acha que seu fardo é mais pesado".

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mais um passo


Há um famoso ditado: "Suba no topo de um mastro de 30 metros, então, dê mais um passo". Qualquer um pode subir num mastro de 30 metros e chegar ao topo. Mas, como alguém pode dar um passo além do topo? Essa é a parte mais intrigante e também a mais importante. Após ter alcançado o topo, não se deveria ficar apegado a ele; não se deveria permanecer lá. Tornamo-nos apegados a idéias e conceitos elevados. Ao invés disso, volte para o chão e viva a vida como sempre. "Mais um passo" não significa um passo para cima, mas um passo para baixo. Venha para baixo e viva a vida iluminada em meio às dificuldades humanas.

Quando subimos num mastro de trinta metros, devemos ser cuidadosos. Sim, podemos fazê-lo por nossos próprios esforços - disciplinando-nos física e mentalmente. Muitas pessoas permanecem no alto, dizendo: "Eu fiz. Consegui!" Mas, a coisa importante é voltar para baixo, para o chão. "Chão" significa nossa vida diária: trabalhar, limpar, cozinhar, cumprir as tarefas. Quando assim compreendemos, então, fazemos tudo isso em nossas vidas diárias - mas não mais como vítimas! Não mais vivemos de um modo casual. Sem apego ao ego, a vida é vivida em seu apogeu. Esquecemos a nós mesmos e colocamos nossas vidas naquilo que estamos fazendo, o que quer que seja. O eu natural flui. Este é o passo além.

Extraído do livro "O Centro Dentro de Nós - O Budismo na Vida Diária" - Sensei Gyomay Kubose (tradução de Ricardo Sasaki).

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Zen na Cozinha


A cozinha atemporal dos monges

Comer como um abade é coisa dita no Ocidente, quando nos refestelamos na boa mesa. Já comer como um monge, não como dito, mas como prática, parece universal. A cozinha dos mosteiros budistas, que aparece no livro da monja Gyoku En, mostra muita austeridade e rigor - uma comida mais preocupada com a educação e aperfeiçoamento do espírito que com delícias para o corpo, em nada distante do monasticismo de origem européia.

Mesmo com toda essa ascese, o comentário sobre o livro cabe num suplemento de gastronomia, pois o "caminho" dos sabores é capaz de aumentar o gosto por comer, pedindo atenção aos aspectos mais negligenciados no nosso labirinto alimentar cotidiano. Não é exagero dizer que a culinária shôjin é uma espécie de slow food ao pé da letra.

Uma frase como "o coração da culinária shôjin é a maneira de cozinhar e a apresentação dos pratos, simples, mas refinados" tirada do livro, ficaria perfeitamente adequada na boca de um luminar da nouvelle cuisine. Ou mesmo na de um cultor dos produtos e do respeito aos sabores originais da natureza, como alguns chefs atuais como Pascal Barbot, Alain Passard ou Andoni Luis Aduriz. Nenhum destes estaria desconfortável no papel de cozinheiro zen, prática codificada em 1237 no Tenzô Kyokun (Instruções ao Cozinheiro Zen) do monge Dogen. Ali está toda a base de formação dos futuros chefs budistas, se é que cabe chamá-los assim. São regras abrangentes tão bem codificadas que o monge-cozinheiro tem a tarefa pela vida toda, em estado de aprendizado constante.

Mas a monja, nascida em Minas Gerais, educada no Mosteiro de Morro da Vargem e radicada em Brasília, faz uma cozinha que se poderia chamar de fusion. Passa pelos caldos, sopas, diversas maneiras de preparar o arroz e tempuras, mas chega a receitas tão ecléticas quanto um sushi com cará. Ou uma salada de nabo com caqui maduro que parece coisa da cozinha novíssima.

O Zen Na Cozinha - Princípios da Culinária Shôjin - Monja Gyoku En (Ed. CLA Cultural)

domingo, 15 de novembro de 2009

Grande dúvida


"Grande dúvida, grande iluminação.
Pequena dúvida, pequena iluminação.
Nenhuma dúvida, nenhuma iluminação."

Expressão Chan (Zen chinês).

sábado, 14 de novembro de 2009

Templo Busshinji - Cinquentenário e Inauguração


Cinquentenário e Inauguração


Programação da cerimônia do cinquentenário do Templo Busshinji e inauguração do Pavilhão Dai Kankaku:

Dia 13 de novembro
10:00 - Cerimônia para Recepcionar o Shumu Socho
- Corte da Faixa de Inauguração e Descerramento da Placa
- Apresentação do novo prédio
11:00 - Cerimônia de Abertura da Imagem do Fundador
11:30 - Cerimônia dos 600 volumes do Sutra Prajna Paramita
12:30 - Banquete no Salão do Pavilhão Dai Kankaku


Dia 14 de Novembro
13:00 - Cerimônia de Abertura do Monumento
13:30 - Palestra
14:30 - Cerimônia Memorial dos Fundadores
15:30 - Cerimônia de Abertura dos Olhos das Imagens Daiguen Shuri Bosatsu e Daruma Soshi
16:30 - Cerimônia Memorial dos Antepassados(Grupo do Japão)
17:30 - Cerimônia do Manto Kuyo (Milhões de Luzes)


Dia 15 de Novembro
08:30 - Cerimônia para Recepcionar o Shumu Socho
09:00 - Cerimônia Memorial dos Monges e Professores falecidos da América do Sul
10:00 - Cerimônia Comemorativa do Cinquentenário do Templo Busshinji
- Entrega do Certificado de Honra ao Mérito de Shumucho para Convidados
11:00 - Cerimônia Memorial para todos os membros
- Entrega do Certificado de Honra ao Mérito do Busshinji para Convidados

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Prática diligente


"Praticar com ordor e diligência, é fazer com que dia e noite as coisas entrem em vosso espírito e que vosso espírito retorne às coisas, sem discriminação, com um espírito igual."

Mestre Dogen.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Eu temo ver o que sou


A prática inteligente sempre lida apenas com uma coisa: o medo na base da existência humana, o medo de que "eu não sou". E é claro que "eu não sou", mas a última coisa que quero saber é isso: eu sou a própria impermanência em uma forma humana em rápida mudança, mas que aparenta solidez. Eu temo ver o que sou: um campo de energia sempre em mutação...

Então a boa prática se refere ao medo. O medo toma a forma de pensamento constante, especulação, análise, fantasia. Com toda essa atividade, criamos uma nuvem-tampa para nos manter seguros em uma prática de faz-de-conta.

A verdadeira prática não é segura; é tudo menos segura. Mas não gostamos disso, então ficamos obcecados em nossos esforços febris para alcançar nossa versão do sonho pessoal. Tal prática obsessiva é também apenas outra nuvem entre nós e a realidade.

A única coisa que importa é ver com uma lanterna impessoal: ver as coisas como elas são. Quando a barreira pessoal cai, por que precisamos chamar isso de alguma coisa? Apenas vivemos nossas vidas. E quando morremos, apenas morremos. Nenhum problema em nenhum lugar.

Charlotte Joko Beck, "Everyday Zen"

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nada é realmente para sempre


Talvez esse título seja um ponto de reflexão que se possa tirar de "O Curioso Caso de Benjamin Button". Talvez a maior sacada do filme seja, justamente, o fato de ser uma fábula. Por vezes, o cinema se prende ao bom e velho "Baseado em Fatos Reais" e se esquece de contar estórias, apenas pelo simples prazer de contá-las.
Se for pensar em lição de vida, me pego com uma série de pontos que dariam uma discussão e tanto. Falar de idade, de envelhecer, de perda, de amor, ...são assuntos tão sensíveis que me aperta o coração só de pensar a vontade que da de envelhecer ao lado da pessoa que realmente amamos.

O fato é que muita gente tem mania de reclamar de envelhecer, de preferir os tempos passados, e ficar delirando neste tipo de nostalgia de pensar sobre as vantagens e desvantagens do tempo, de achar que era feliz quando era mais jovem, ou que os melhores anos ainda estão por vir, e na verdade acabamos deixando de curtir o hoje, acabamos perdendo o AGORA. E as pessoas que estão HOJE na sua vida, e que amanhã podem não estar mais?

Saber envelhecer com sabedoria, tomar decisões sem esperar "a hora certa" e colher os frutos dessa vida. Não deixe nada para a próxima. Essa é uma questão que cabe ao você de HOJE!

Tanto rejuvenescendo quanto envelhecendo, o tempo e a idade existem para nos mostrar que NADA É PARA SEMPRE!

domingo, 8 de novembro de 2009

Plena percepção consciente dos sentimentos


É o nível do sentimento que controla a maior parte da nossa vida interior, mas, mesmo assim, em geral não temos uma real consciência dos nossos sentimentos. Nossa cultura ensinou-nos o retraimento e a supressão – “demonstrar as emoções” não é adequado para um homem e apenas certas emoções são permitidas às mulheres.

Quando não aprendemos a falar sobre os nossos sentimentos ou mesmo a tomar consciência deles, percebendo quando a consciência é 'colorida' por emoções negativas, nossa vida continua enredada. Para muitos praticantes da meditação, recuperar a percepção consciente dos sentimentos é um processo longo e difícil. Contudo, na psicologia budista, levar a consciência aos sentimentos é um fator decisivo para o despertar. Num ensinamento conhecido como: “O ciclo de surgimento das condições” [A roda da Vida], Buda explica como o ser humano fica enredado. É o sentimento que nos retém ou que nos liberta. Quando surgem sentimentos agradáveis e os retemos de modo automático, ou quando surgem sentimentos desagradáveis e tentamos evitá-los, estabelecemos uma reação em cadeia de perplexidade e dor. Esse processo perpetua o “corpo de medo”. Mas, se aprendermos a ter consciência dos sentimentos sem avidez ou aversão, então eles poderão mover-se através de nós como as estações do ano e seremos livres para senti-los e mudar como o vento. Um exercício de meditação muito interessante consiste em focalizar especificamente os nossos sentimentos durante vários dias; damos nome a cada um deles e vemos quais os que tememos, quais os que nos enredam e quais geram histórias, e como tornar-nos livres. “Livre” não quer dizer livre dos sentimentos, mas, sim, livre para sentir cada um deles e deixá-lo mover-se, sem temer o movimento da vida. Podemos aplicar esse exercício sempre que padrões difíceis se apresentarem. Sentir qual o sentimento que está no centro de cada experiência e tornar-nos plenamente abertos para ele. Esse é um movimento em direção à liberdade.

Do Livro: “UM CAMINHO COM O CORAÇÃO” - de Jack Kornfield.