
A cozinha atemporal dos monges
Comer como um abade é coisa dita no Ocidente, quando nos refestelamos na boa mesa. Já comer como um monge, não como dito, mas como prática, parece universal. A cozinha dos mosteiros budistas, que aparece no livro da
monja Gyoku En, mostra muita austeridade e rigor - uma comida mais preocupada com a educação e aperfeiçoamento do espírito que com delícias para o corpo, em nada distante do monasticismo de origem européia.
Mesmo com toda essa ascese, o comentário sobre o livro cabe num suplemento de gastronomia, pois o "caminho" dos sabores é capaz de aumentar o gosto por comer, pedindo atenção aos aspectos mais negligenciados no nosso labirinto alimentar cotidiano. Não é exagero dizer que a culinária shôjin é uma espécie de slow food ao pé da letra.
Uma frase como "o coração da culinária shôjin é a maneira de cozinhar e a apresentação dos pratos, simples, mas refinados" tirada do livro, ficaria perfeitamente adequada na boca de um luminar da nouvelle cuisine. Ou mesmo na de um cultor dos produtos e do respeito aos sabores originais da natureza, como alguns chefs atuais como Pascal Barbot, Alain Passard ou Andoni Luis Aduriz. Nenhum destes estaria desconfortável no papel de cozinheiro zen, prática codificada em 1237 no Tenzô Kyokun (Instruções ao Cozinheiro Zen) do monge Dogen. Ali está toda a base de formação dos futuros chefs budistas, se é que cabe chamá-los assim. São regras abrangentes tão bem codificadas que o monge-cozinheiro tem a tarefa pela vida toda, em estado de aprendizado constante.
Mas a monja, nascida em Minas Gerais, educada no Mosteiro de Morro da Vargem e radicada em Brasília, faz uma cozinha que se poderia chamar de fusion. Passa pelos caldos, sopas, diversas maneiras de preparar o arroz e tempuras, mas chega a receitas tão ecléticas quanto um sushi com cará. Ou uma salada de nabo com caqui maduro que parece coisa da cozinha novíssima.
O Zen Na Cozinha - Princípios da Culinária Shôjin - Monja Gyoku En (Ed. CLA Cultural)